Futuro: o que eu quero ser antes de crescer?

 

Fonte: @ugurgallen


As infâncias são distintas e ricas, o que elas têm em comum é que as crianças têm em sim a semente do futuro e da liberdade. Contudo, o que tem diferenciado as infâncias mais do que suas culturas e práticas sociais é a possibilidade do porvir. O sistema de acumulação de rendas tem acentuado cada vez mais a desigualdade socialroubando e maculando de muitos sujeitos umas das fases mais lindas da vida, a infância 

Hoje encerro uma fase nas escritas nesta plataforma sobre tecnologia e mais uma vez trago este artista que admiro, o talentoso fotógrafo Ugur Gallen. Ele representa e denuncia pelas suas composições, questões que não são tão visíveis aos olhos, expõe como a desigualdade social atinge diferentemente os indivíduos, sendo norteado por questões étnicas, regionais e de gênero/ etária. Assim, é comum vermos como protagonistas dessas imagens em situação de vulnerabilidade, grupos étnicos marcados pela colonização; situados em países do sul, de economia periféricas (dependentes/ primária); mulheres, meninas e crianças. 

Esta forte, sensível e linda composição confronta dois mundos, duas infâncias: uma livre, de leituras e sorriso, marcada pela liberdade de infinitas possibilidades de ser no futuro. Outra infância, apresenta uma criança que já na sua tenra idade ao invés de livros e brinquedos, tem tijolos e muito labor. A criança anônima da foto acima está em uma fábrica de tijolos na cidade de Fatullah, perto de Dakka, em Bangladesh. Além desta, o artista apresenta as infâncias roubadas pela exploração econômica, sexual infantil e escravidão em vários países do Sul.  

Este cenário de expropriação da infância, pelo capital e por uma política neoliberal, em quase todos os casos, impedem as crianças de ter uma educação de qualidade, de ir à escola regularmente, de ter moradia adequada e segura, dos cuidados de saúde, restringindo os seus direitos fundamentais e ameaçando o seu futuro. Em consonância com o artista, o teórico indiano Amartya Sen (1999), descreve a pobreza, como a privação das capacidades básicas de um indivíduo e não apenas como uma renda inferior a um patamar pré-estabelecido. Entendendo capacidade como as possibilidades de realização, a capacidade é um tipo de liberdade: a liberdade substantiva de realizar combinações alternativas de funcionamentos (o que o sujeito considera valioso fazer ou ter)  ou a liberdade para ter estilos de vida diversos.  

A pandemia do Covid-19 impôs uma nova realidade no mundo e acelerou mudanças que gradativamente já aconteciam na relação educação-tecnologia digitais. Trazendo novos desafios para esse campo, expondo como a desigualdade social de nosso país afeta muito cruelmente a educação. O quadro pandêmico evidenciou um desafio a ser superado na relação educação - tecnologia, como destaca a teórica Lynn Alves (2020), pois a escolas brasileiras apresentam dificuldades como o acesso e a interação a artefatos culturais e tecnológicos por parte de estudantes e as vezes, até dos professores; infraestrutura das escolas que não oferece o mínimo necessário para realizar atividades que precisam das plataformas digitais, inclusive sem conexão com a internet; formação precária dos docentes para pensarem e planejarem suas práticas com essa mediação, tornando visível uma perspectiva instrumental das relação com as tecnologias. 

Neste novo momento, há uma reconfiguração no processo de ensino-aprendizagem, a Educação Remota, ou seja, práticas pedagógicas mediadas por plataformas digitais, com encontros frequentes durante a semana, seguindo o cronograma das atividades presenciais realizadas antes do distanciamento imposto pela pandemia, através de aplicativos com os conteúdos, tarefas, notificações e/ou plataformas síncronas e assíncronas como o Teams (Microsoft), Google Class, Google Meet, Zoom (GOMES, 2020).  

Essas plataformas disputam acirradamente para conseguirem pegar a maior fatia do mercado. Assim, vemos se desenvolver na rede privada brasileira da Educação básica, uma perspectiva mercantilista da educação, com a venda um serviço no qual pais e estudantes são entendidos como clientes, validados por um contrato, pois os pais ao pagarem pela educação recebida nas escolas que escolheram para seus filhos, cobram pela continuidade das atividades apesar do contexto em que estamos inseridos. 

Há uma adaptação temporária das metodologias usadas no regime presencial e as tecnologias digitais são subutilizadas como meros recursos didáticos, utilizadas como meio para atingir um determinado objetivo, como repositórios de textos, para animar e deixar as aulas mais interessantes e se aproximar do universo digital dos seus estudantes. Embora seja funcional, esta perspectiva não proporciona uma aprendizagem e práticas colaborativas entre os sujeitos do processo de ensinar e aprender. 

No cerne deste novo método de ensino há a redução do processo educativo, ao ato de instruir e a estruturação da educação para atender as demandas do mercado, a lógica econômica, medidas que constituem o projeto neoliberal para a nação, numa redução do papel do Estado na proteção dos cidadãos no campo da saúde, educação, segurança, emprego e todas as áreas que constituem a vida humananuma lógica onde o Estado se omite de seu papel, lançando-os aos ditames do capital e responsabilizando-os  pelo seu próprio desenvolvimento. 

Segundo Alves (2020), a descontinuidade que a pandemia suscitou, tornou muito notório em países que apresentam índices significativos de pobreza e desigualdade social acirradas, como o Brasil, as barreiras físicas, culturais, econômicas e tecnológicas que estruturam a sociedade, dando visibilidade àqueles que eram considerados invisíveis e muitas vezes esquecidos. Essa parcela da população vem sendo muito afetada especialmente no que se refere às questões relacionadas a sobrevivência durante esse período.  

A educação só pode mudar essa realidade, ao se desenvolver com qualidade numa prática educativa norteada pela liberdade de todos os atores. Como afirma Penna (2016), as crianças devem se desenvolver em um ambiente que suscite seu desenvolvimento intelectual, artístico e subjetivo, suplantando a lógica neoliberal que torna o ensino propedêutico para atender os fins lucrativos do mercado. 

O diálogo com os teóricos Alves (2020) e Sen (1999), me faz pensar em tecnologias e liberdade, sonhar num futuro onde as tecnologias na prática educativa, mais do que uma ferramenta no qual os docentes transmitem informações e orientações para um grupo de alunos que nem sempre conseguem acompanhar e participar do que está acontecendo nos encontros virtuais, numa lógica instrumental da tecnologia. Assim, através das TIC, despertar os discentes para que possam criar, se autorizar, participar, e interagir com seus docentes e colegas, pensando e discutindo o momento que estão vivendo, escutando-os e agindo criticamente em prol da liberdade, a fim de expandir as capacidades humanas.  

Ampliar as capacidades dos indivíduos, enriquece direta e indiretamente a vida humana e a tornar as privações mais raras e menos crônicas. A liberdade deve proporcionar para todas as crianças, as capacidades elementares como, de ter condições de evitar a fome, a subnutrição, a morbidez e a morte prematura, de ter moradia e segurança, além de saber ler e fazer cálculos aritméticos, ter participação política e liberdade de expressão, etc. Liberdade para ser alguém antes de crescer, para ter e vivenciar a infância para brincar, rir, pensar e ter um futuro de possibilidades. Então, todas as crianças de norte a sul, de distintas etnias e gêneros serão igualmente livres e poderão romper com as práticas neoliberais encarceradoras, não reproduzi-las e construir uma nova ordem mundial. 

  

ALVES, Lynn. Educação remotaentre a ilusão e a realidade. Interfaces Científicas. AracajuV.8N.3. p. 348 – 365, 2020. 

GOMES, Helton. Como o Google quer fazer você esquecer do Zoom para videoconferências. Publicado em 29 de abril de 2020. Disponível em: https://www.uol.com.br/tilt/noticias/redacao/2020/04/29/como-o-google-quer-fazer-voce-esquecer-do-zoom-para-fazer-videoconferencias.htm  

PENNA, Fernando Araújo. Programa "Escola sem partido": uma ameaça à educação emancipadora. In: GABRIEL, C. T. et al. Narrativas do Rio de Janeiro nas aulas de história. Rio de Janeiro: Mauad X, 2016, p. 43-58. 

SEN, Amartya Kumar. Desenvolvimento como liberdade. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 1999. 

Comentários

  1. Parabéns pela reflexão Daniele. É isso, as crianças (todas!!!) têm o direito de brincar, ser feliz, aprender, viver plenamente o seu espaço-tempo, de forma a se constituírem cidadãos plenos, com possibilidade de mudar o seu presente e o futuro da sociedade. As crianças são sujeitos sociais, hoje, e não apenas projetos de futuro, projetos que sabemos são designados a priori, de acordo com a classe social a que pertença cada criança. Batalhemos para que cada criança possa SER, em liberdade, sempre!

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