Flores ao Vento...

 Uma das poucas certezas que temos é da finitude da existência humana. A vida é breve, um sopro, por isso deveria ser mais valorizada, assim como as relações humanas. Contudo, ocorre o contrário as relações sociais têm sido construídas numa base fluída, porosa. Bauman (2001) descreve a sociedade atual como líquida, não se atendo muito a qualquer forma e estando constantemente pronta para mudar e assim as relações fluem, escorrem, esvaem-se e não são facilmente contidas.
Desta forma, o sentido da vida mudou e vivemos um dos piores momentos da história moderna mundial, até o dia 7 de abril de 2021 no Brasil foram 341. 097 pessoas que partiram devido o Covid, uma triste estatística de mais de 4 mil óbitos por dia. Não são rostos anônimos, são pais e mães, filhos e filhas, avôs, netos, tios. É a professora, o vizinho, a enfermeira, é alguém importante para outro alguém. Vivemos uma pandemia muito cruel, que aparentemente nos atinge de forma igual, sem distinções, contudo de acordo nosso lugar na sociedade nosso acesso a moradia, saúde, transporte, trabalho esses fatores poderão ser decisivos para nossa vida nessa guerra.
Bauman afirma que o sujeito contemporâneo perdeu o status de cidadão para individuo. “O “cidadão” é uma pessoa que tende a buscar seu próprio bem-estar através do bem-estar da cidade — enquanto o indivíduo tende a ser morno, cético ou prudente em relação à “causa comum” ao “bem comum” à “boa sociedade” ou à “sociedade justa”. ( 2001, p. 45). A individualização transforma os elementos da “identidade” humana, as suas demandas de educação, moradia, trabalho, saúde, segurança, lazer em “tarefa” e delega os próprios atores da responsabilidade de executar essas tarefas e das consequências (assim como dos efeitos colaterais) de sua realização. O público foi cooptado pelo privado, individualizamos questões sociais e desresponsabilizando o Estado o qual se abdica do seu papel, deixando tudo ao encargo dos sujeitos, do mercado e de sua mão invisível e cruel.
Este quadro nos levou ao triste cenário atual da pandemia, passamos por quatro ministros da saúde, num desgoverno em que o próprio chefe do executivo minimizou a situação caracterizando com uma gripezinha, não fez o uso devido da máscara, promoveu aglomerações, indicou medicações sem nenhum resultado comprovado de sua eficácia, destratou a imprensa, tolheu o acesso as informações, além de dificultar o trabalho de governadores e prefeitos que procuram por fora sanar a crise. Caminhamos não tendo o planejamento em tempo hábil para compra de vacinas e vacinação.
Nós individual e isoladamente somos responsáveis pela manutenção de nossas próprias vidas, cuide da sua saúde, tome o remédio e estoque alimentos se preciso for. Isto se agrava no contexto da sociedade brasileira que é marcada pela desigualdade social, a democracia não chegou plenamente a todos, assim temos clivagens abissais entre homens e mulheres, negros e brancos, Nordeste e Sudeste. Assim, a luta pela sobrevivência é ainda mais dolorosa, porque não temos acesso aos recursos para ficarmos vivos. Então, ainda que você não queira se expor, é preciso trabalhar, porque você é o único responsável por seu sustento e de sua família.
Estes números frios têm histórias, tem nomes, caras, gostos e cheiros, toda uma vida por trás. Mas a modernidade líquida dissolve o papel do Estado e também do cidadão, transformando-o em indivíduo, o qual tem que achar soluções individuais para problemas criados socialmente. A sensação é que as pessoas que partiram, simplesmente evaporaram no ar, como gotas de chuva que apenas se vai, sem nenhum valor.
Realmente, a vida humana é frágil, como a erva do campo, a gente nasce pela manhã, cresce e a noite perece. Mas ainda que seja um sopro o nosso viver, todos têm o direito de na sua sucinta existência com dignidade florescer.
“Nossos dias na terra são como o capim; como as flores do campo, desabrochamos. O vento sopra, porém, e desaparecemos, como se nunca tivéssemos existido”. Salmos 103.15–16
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

Comentários

  1. Muito boa reflexão Daniele; deixamos de ser tomados como cidadãos e passamos a ser indivíduos ou números, sem história, sem rosto, sem vínculos. O que está gerando isso? Será a modernidade líquida? Ou ela também é resultado de algo mais profundo? Penso que precisamos buscar os fundamentos de todos os processos que estamos vivendo, e eles estão no sistema capitalista, que tudo desenraíza para poder vender, controlar, tornar descartável. Enquanto não atacarmos, mesmo em nossas reflexões, o sistema que dá origem a tudo isso, não vamos conseguir avançar em busca de soluções para todos os problemas que estamos vivendo...

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