Guerreiras do Amanhã
Na distante ilha de Humaitá, no Reino de Nova Itapipoca, vivia uma jovem menina, doce guerreira, apesar dela ainda não saber disso. Esta menina comum tinha um dom, ela era capaz de ver no escuro e de sonhar com o passado e o futuro.
Tinha pele preta bem retinta que o sol deixava mais brilhante e olhos radiantes como estrelas. Lindos cabelos crespos, sempre tinha um novo penteado por ora trançados até a cintura e ela amava desfilar e se amostrar.
Ainoã era uma garota alegre, mas com os acontecimentos da vila andava triste e pensativa, sua mãe D. Ana era pescadora e marisqueira, seu pai Seu João tinha sido maquinista toda vida. Sim, nesta pequena ilha tinha uma linha de trem que cruzava o oceano para o continente. Mas a modernidade chegou, os antigos, mas funcionais trens pararam de rodar. Ela não entendeu direito, mas parece que iriam colocar um novo trem mais rápido e bonito no lugar.
Sua família, junto a outras foram protestar, mas não adiantou muito, os soldados do Reino soltaram os cachorros em cima delas. E sua mãe que carregava um lindo cartaz que a filha escrevera saiu correndo junto com outras marisqueiras, mas ainda assim recebeu uma mordida nos fundilhos.
Agora, estava tudo mais difícil sua mãe pescava, mas era muito difícil fazer chegar os produtos sem a agilidade do trem, seu pai tentou de ônibus, mas ninguém queria o cheirinho de peixe e mariscos lá dentro.
Tadinho, foi expulso a gritos e pontapés do coletivo, tentou a pé, de bike, mas os produtos se estragavam com a demora do percurso e agora ele vai tentar de barco, apesar de não ser o melhor dos marinheiros. Eram dias difíceis, não faltava, mas também não sobrava, a venda era pouca.
Ainoã ouvia dos antigos e via nos seus sonhos como todos no passado tinham mesa farta, a praia era limpa, sem as sujeiras que vinha da cidade, tartarugas e arraias tinham de monte e animais e pessoas eram mais felizes e mais livres, antes de invasores chegarem e estabelecerem lá impondo o Reino. Isso a incomodava e ardia em seu peito por dias melhores, sementes de indignação e fome por justiça cresciam dentro dela.
Sua vó queixava-se “ isso é culpa da modernidade”, a mata próximo a sua casa, agora é um entre e saí de caminhão com toras de arvores, chora floresta, chora bicho, chora gente. Todos sentem a mesma dor. Isso tudo para fazer um condomínio de luxo.
Passou a ser comum um macaco, uma cobra ou uma onça aparecerem perdidos pelo seu quintal comendo suas galinhas, seus os ovos ou os pintinhos.
Tanta dor foi roubando a alegria da ilha e as pessoas passaram a querer deixar aquele lindo lugar, querer ganhar mais dinheiro e o pior roubar suas riquezas, seus animais, suas pedras preciosas e até as almas das pessoas só para ter mais dinheiro, poder e controle sobre todos.
Apesar de tudo isso, os fins de semana eram dias de festa, Nõa, apelido que a vovó deu a pequena, juntava-se a suas amigas, que as mães eram marisqueiras também e junto com as pequenas Margarida e Hortênsia era só diversão, enquanto as meninas brincavam de amarelinha, criavam receitas com ervas do quintal, jogavam pique-esconde na mata. Seus pais ouviam uma boa música e a dança ia do forró ao caribó com muita comida e bebida gostava que alimentavam mais do que o corpo, mais a alma para enfrentar a crueldade da lida.
Na ilha havia três dragões adormecidos, o que os habitantes da Vila de Piripoca não sabiam era que a maldade dos invasores e agora dos moradores despertava os dragões. Eles eram dragão Dindin, Alminha e Brutus, não se deixe leva pelos nomes fofos e pela aparente beleza deles, que chega ofuscava os olhos e fascinava muitos, mas sua lindeza era tão grande quanto suas perversidade e pavor, eles eram terríveis.
Os três pobres e malvados dragões alimentavam-se das maldades que eles mesmos geravam. O dragão Dindin, fazia tudo, tudinho por uma moeda, para ter um dinheiro a mais na sua fortuna.
O dragão Alminha aprisionava mentes, corpos e almas de pessoas e animais para trabalharem para ele de graça e ele enriquecer mais e de forma fácil.
E o dragão Brutus alimenta-se da força, inteligência e beleza das mulheres, quer idosas, adultas, jovens ou meninas. Tudo isso para usar da sabedoria, força e beleza delas para criar seus planos, crescer seus negócios e enganar os outros para aumentar seus tesouros. Dificultando a vida de meninas e mulheres de terem um futuro e presente melhor.
Além disso, o que os moradores nem de Piripoca, nem dos outros vilarejos sabiam era que juntos os dragões eram mais fortes, quase invencíveis, assim como eles se juntassem também excederiam os trio de vilãos.
E assim, Dindin, Alminha e Brutus se uniram para pegar as riquezas da Ilha de Humaitá, seus tesouros e pedras preciosas, seus animais e recursos naturais e seu povo aprisionando mente, corpo e alma.
Continua…
AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo? Disponível em https://territoriosdefilosofia.wordpress.com/2014/07/14/o-que-e-o-contemporaneo-giorgio-agamben/
SANTOS, Boaventura de Sousa. A cruel pedagogia do vírus. Coimbra: Edições Almedina, 2020.
Parabéns pelo texto!! 👏🏽👏🏽👏🏽
ResponderExcluir😍😍😍
ExcluirMuito bacana o conto! Uma boa história para fazer pensar sobre as relações e a sociedade. Parabéns!!!!
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