O que uma nação de fazendeiros tem a oferecer ao resto do mundo?
| Visão panorâmica de Wakanda (© Marvel Studios, 2018) |
O contexto dessa frase racista que inicia este texto é uma das cenas finais do filme Pantera Negra, onde o rei T’Challa do país fictício, autônomo e futurista Wakanda, situado na África Oriental, faz uma fala num Congresso mundial e oferece a tecnologia de seu país superdesenvolvido, a fim de minimizar os males sociais que o mundo enfrentava. Então, um dos congressistas imbuído de uma visão reducionista da África, dirigiu-se ao rei e T’Challa e faz essa pergunta nociva.
Ao se pensar no binômio de inclusão-exclusão o
comum são políticas públicas compensatórias, serviços de assistência social,
ações propostas de forma isolada, desarticuladas das outras políticas públicas
e desconsiderando a complexidade das questões sociais vividas pelas comunidades
que estão em condição de pobreza. A exclusão social assim é tratada de forma
fragmentada e autônoma, sem se relacionar com os seus contextos de produção e
reprodução e sem se articular com suas consequências político-sociais,
esvaziando e individualizando o conflito e o sujeito.
Esta lógica não muda quando falamos dos conceitos
de inclusão-exclusão digital, segue-se a mesma abordagem reducionista que entende
exclusão digital apenas como mais uma forma de exclusão, há um enfoque no fato
e pouca atenção ao processo que exclui os indivíduos e as organizações do
acesso e uso das novas tecnologias. Bonilla e Pretto (2011) criticam este
viés, na qual a inclusão digital é pensada somente no quesito acesso, onde se destaca
em excesso a importância da presença física dos computadores e da conectividade,
ignora outros fatores sociais que possibilitam o uso das Tecnologias da
Informação e Comunicação (TIC).
Segundo estes teóricos, esta abordagem focada no
acesso é insuficiente para a promoção do desenvolvimento social pleno dos
sujeitos. É basilar uma perspectiva social transformadora que considere os
complexos aspectos sociais relacionados às questões das desigualdades no uso
das TIC. Assim, mas do que criar infocentros populares nas periferias, instalar
totens de internet e distribuir chips de internet para alunos da rede pública
de ensino é preciso pensar o quanto essas abordagens colaboram para que os
sujeitos se articulem ativamente nessas novas dinâmicas sociais através das
tecnologias para gerar as transformações necessárias as suas demandas sociais,
econômicas culturais e políticas.
O espaço virtual contém todas as desigualdades e
opressões da sociedade contemporânea, logo para promover que os sujeitos ocupem
e utilizem deste ambiente de forma ativa, não somente como consumidor ou um
usuário passivo, mas como um agente ativo neste processo, é preciso que ao
possibilitar a inserção e ação dos sujeitos no ciberespaço não ignorar todas as
questões sociais complexas que permite a manutenção das desigualdades sociais
que levam a exclusão social.
Os limites de exclusão social-digital transcendem o
virtual-real se materializam quando pensamos nas startups. Estas são empresas que tem a tecnologia no seu centro ou para criar algum
produto novo ou fazem uso da tecnologia e do meio digital para efetuar suas
operações, que geram lucro muito rápido, elas também trazem em si as marcas de
nossa sociedade desigual e de todos os seus males.
A agência ACE
Startups traçou em 2020 o perfil de fundadores das startups brasileiras,
hoje são cerca de 13 mil empresas no mercado, a maioria dos fundadores são
homens, formados em universidades públicas, privadas ou estrangeiras de ponta. Segundo
a pesquisa, todos os fundadores tem nível superior, porém alguns cursos são
maiores formadores de empreendedores, se destacam aqueles ofertados pela USP,
PUC-Rio, UNICAMP, ITA e Fundação
Getúlio Vargas. Os cursos de Administração,
Engenharia, Economia e Ciências da Computação representam
a formação
de 70% dos entrevistados pela pesquisa. Quanto
aos cursos de pós-graduação, mais da metade dos participantes da pesquisa
fizeram especialização nas áreas de administração e finanças. Sendo que as
instituições mais procuradas pelos fundadores das startups brasileiras são Universidade de Stanford, Universidade de Harvard, Wharton Business School, FGV e IBMEC.
Segundo
o estudo recente Female Founders Report 2021,
realizado pela Distrito em parceria com a Endeavor e a B2Mamy, foi constatado
os impactos da desigualdade de gênero dentro de startups brasileiras, apenas 4,7% das
startups brasileiras foram fundadas exclusivamente por mulheres e 5,1% por
mulheres e homens.
Isso significa que mais de 90% desses negócios possuem apenas homens como
fundadores. Além da disparidade de gênero, a pesquisa demonstrou que as startups
conduzidas só por mulheres receberam de investimentos apenas 0,04% dos mais de
US$ 3,5 bilhões aportados no mercado em 2020. Apesar de estudos indicarem que
startups fundadas por mulheres, historicamente,
garantem um retorno maior sob o investimento.
Ao confrontar estes
dados acima com os da Agência Brasil que publicou a pesquisa do IBGE sobre
acesso a educação em 2019 os resultados são chocantes. As regiões Sul e Sudeste
têm as menores taxa de analfabetismo, 3,3% entre os que têm 15 anos ou mais. Na
Região Centro-Oeste a taxa é 4,9% e na Região Norte, 7,6%. O Nordeste tem o
maior percentual de analfabetos, 13,9%. Ainda de acordo o IBGE, a maior parte
do total de analfabetos com 15 anos ou mais, 56,2% - o que corresponde a 6,2
milhões de pessoas - vive na Região Nordeste e 21,7%, o equivalente a 2,4
milhões de pessoas, no Sudeste. As pessoas brancas estudam, em média, 10,4
anos, enquanto as pessoas pretas e pardas estudam, em média, 8,6 anos, ou seja,
uma diferença de quase dois anos entre esses grupos, que se mantém desde 2016.
Quando se pensa acesso a
escolarização e sobre a produção e consumo de tecnologia há uma clivagem
abissal entre Nordeste e Sul/ Sudeste, um recorte social, regional,
acadêmico, gênero e racial nessas empresas. Os dados de analfabetismo na região
Nordeste 6,2 milhões pessoas que não se apropriaram das letras e os anos de
escolarização entre pessoas negras e brancas há uma diferença de dois anos.
Além do que nenhuma das instituições de ensino citadas acima estão na região do
Nordeste brasileiro. É preciso pensar como a tecnologia e a educação tem
chegado nessa região e o que de fato tem produzido.
O que se espera das TIC não
é soluções simplistas para os complexos problemas estruturais do Brasil,
restringindo a tecnologia como salvadora das demandas sociais, reduzindo a
perspectiva mercadológica para estimular geração de emprego e renda, contudo
sem confrontar as estruturas reprodutoras destes abismos sociais. Mas numa
visão afrofuturista, a despeito do passado e presente marcado pela opressão,
também é marcado pela resistência e reinvenção dos povos negros diaspóricos ou
africanas, pensando e agindo por um futuro onde as pessoas negras existem e são
diretamente responsáveis pelo mundo em que vivem, estas que são a maior parte
da população de nossas periferias podem produzir tecnologias e atuar em todas as
áreas da sociedade na arte, música, cultura, política. Assim, possibilitar que as
pessoas da comunidade, majoritariamente negras, atuem com autonomia e
independência no uso ativo e recursos ilimitados das TIC para escrever uma
nova história.
Desta forma Nátaly Neri explana sobre
afrofuturismo como uma forma de pensar um futuro onde pessoas negras
sobreviveram à violência policial, à falta de oportunidades de estudos, aos
salários menores e ao racismo estrutural como um todo. É um porvir em que
negros existem, porém não como sujeitos escravizados ou ainda na luta pela
sobrevivência, mas como criadores de sociedades marcadas pelo alto
desenvolvimento tecnológico e pela cultura e estética africana.
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| Arthur Lima e Karine Oliveira. Foto: Reprodução/Forbes. |
Ambos, os jovens soteropolitanos, devido o
trabalhos desenvolvidos na liderança das startups saíram na lista da revista Forbes Under 30
2020, que destaca jovens brasileiros mais influentes, empreendedores e
inovadores do ano abaixo dos 30 anos sendo
destaque na categoria Ciência e Educação. Os relatos de Arthur Lima e
Karine Oliveira, apesar de confrontarem as estimativas, são casos particulares,
nada tem de meritocráticos, pois este discurso
neoliberal que fragmenta e individualiza os problemas sociais, enaltecendo o
sofrimento e aqueles que crescem pelos seus próprios esforços é falacioso,
trabalha com exceções e não com a regra, tira a responsabilidade do Estado de garantir
mínimas condições de vida para os sujeitos, colocando-os como responsáveis pelo
seu sucesso ou fracasso, independentemente das variáveis de seu contexto
social.
A tecnologia
deve está na comunidade, nas escolas, nas universidades, em todas as casas, não
apenas na perspectiva mercadológica, para atender as necessidades do mercado ou
tornando esse indivíduo como exercito de reserva (reserva de trabalhadores desempregados e que estão a mercê do mercado, de baixos salários e até de condições subhumanas de trabalho), mas no viés afrofuturista,
que enxerga um futuro para o povo negro, para o povo das periferias. Em que
este age e produz tecnologia, soluciona problemas e propõe soluções e surpreende
os que acham que somos apenas “uma nação de fazendeiros” (apesar de não haver
demérito em ser do campo) e nos classifica numa perspectiva linear,
hierárquica, eurocêntrica, como sujeitos “atrasados” e sem tecnologia, eternamente
dependentes, limitados a ser o país do futebol, do samba. Mas não somos restritos
e definidos apenas pela arte do futebol e do samba, porém pela potência de
re-existir.
Em síntese, Bonilla
e Pretto (2011) afirmam que as perspectivas emancipatórias das TIC muda a ênfase
das políticas compensatórias e ações, destacando a produção do conteúdo digital relacionado as
culturas tradicional e digital, suplantando a dependência das comunidades
suscitando a iniciativa, a autoria, a tomada de decisões. Assim, a tecnologia não
será pensada de forma fragmentada, isolada, mas está articulada com as questões
educacionais e ações de promoção à participação política do cidadão e então, uma nação de fazendeiros surpreenderá e ajudará o mundo.
Assim, num
viés afrofuturista, espera-se um porvir de esperança, onde a tecnologia não
será mais um instrumento paliativo, usado de forma desarticulada para camuflar as
questões estruturais sociais vigentes no nosso país. Porém, de forma articulada com as
políticas sociais e cultura local possibilitará a criação, participação social e
pleno desenvolvimento dos sujeitos para que estes tenham liberdade para ser, liberdade de viver e de vivenciar plenamente todas as suas potencialidades.
BONILLA, Maria Helena; PRETTO, Nelson (org.). Inclusão Digital: polêmicas
contemporâneas. Salvador: Edufba, 2011.
NERI, Nátaly.
Afrofuturismo: a necessidade de
novas utopias. https://www.youtube.com/watch?v=_D1y9yZRpis.
Acesso em 13 de abril de 2021
https://ginnolarry.com.br/forbes-under-30-e-destaque-no-shark-tank-karine-oliveira-fala-da-wakanda-no-abmp-talk/
https://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2020-07/taxa-cai-levemente-mas-brasil-ainda-tem-11-milhoes-de-analfabetos
http://virtual-sf.com/wp-content/uploads/2013/08/Yaszek.pdf


Parabéns pela reflexão Daniele. Com consistência você articula temas, por si só, complexos, mas que se não relacionados, nos oferecem uma visão enviesada da realidade; articula tb a teoria e a ação social, o pensar e o fazer, a crítica e a resistência, perspectivas que possibilitam pensar uma outra sociedade e agir sobre os modelos instituídos em busca dos objetivos almejados. Gostei muito!!!!
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