Terra Dividida
O conhecimento sempre foi um objeto de desejo e
também objeto de esperança para a sociedade, logo o livre acesso a ele é
fundamental para pensarmos numa sociedade menos desigual e com menos clivagens
sociais. Esta ideia sobre o poder do conhecimento foi a base do pensamento
moderno que levou a sociedade para o século XX. Contudo, Boaventura Santos
(2008) explana que a crença na ciência para o fim dos males sociais e para uma
construção de nova e melhor sociedade é falaciosa.
O equívoco desta ideia é a crença ingênua nas
pessoas, ignorando que as relações de poder sempre nortearam todas as relações
sociais, quem produz conhecimento detém um poderoso capital. Assim, o
conhecimento tem sido usado para finalidades de grupos de interesses privados,
beneficiando a poucos, gerando guerras, aumentando e não minimizando as
desigualdades, como afirma Santos (2008, 2010), a produção do conhecimento está
a serviço do capital e não para o bem da sociedade. Logo, é preciso pensar em
outros lócus de produção do conhecimento e outra maneira de se fazer ciência conferindo
espaço a epistemologia do sul.
A restrição da produção do conhecimento se estende
a todos as áreas sociais, inclusive no ciberespaço (espaço virtual). Para um
computador realizar qualquer operação ele precisa de um conjunto de comandos
(software), uma sequência de instruções que fazem a máquina (hardware)
funcionar. Inicialmente, as instituições que desenvolviam estes programas
compartilhavam entre si, desta forma todos podiam modificar os programas e
partilhar as mudanças, segundo as diretrizes acadêmicas de liberdade e
colaboração. Essa prática possibilitou o desenvolvimento da informática, mas a
expansão da área e a diversidade de máquinas que passaram a ser produzidas levaram
o hardrware e o software a começar a serem feitos por caminhos distintos,
contudo sendo interdependentes. Então, além da comercialização da máquina, tornar
o software em um produto de mercado passou a ser uma possibilidade.
Rousseau descreve o início da sociedade privada
através da metáfora “O primeiro homem que, havendo cercado um pedaço de terra, disse
“isso é meu”, e encontrou pessoas tolas o suficiente para acreditarem nas suas
palavras, este homem foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Quantos
crimes, guerras e assassínios, de quantos horrores e misérias não teria poupado
ao gênero humano aquele que, arrancando os marcos, ou tapando os buracos,
tivesse gritado aos seus semelhantes: Livrem-se de escutar esse impostor; pois
estarão perdidos se esquecerem que os frutos são de todos, e a terra de
ninguém!”.
Igualmente
como é descrito por Rousseau, quando há o inicio da comercialização do software, este deixou
de ser socializado. Bonilla (2014) afirma que o software fica restrito a
empresa ou produtor do sistema e o modelo de software proprietário ou privado
se fixa limitando o conhecimento somente para o proprietário. Assim, usar
software numa perspectiva de produção e liberação, se familiarizar, colaborar,
produzir e difundir esses sistemas, isto é, se engaja no movimento software
livre, não é somente uma mera questão técnica, mas política também.
A
restrição, no acesso e na produção de software, ou seja, no desenvolvimento de
tecnologia, dificulta o livre desenvolvimento humano e deixa a produção
científica a serviço do mercado. Como Chico Buarque explora na canção “Funeral de um lavrador” (inspirado no
auto Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto).
Esta cova em que estás com palmos medida
É a conta menor que tiraste em vida
É a conta menor que tiraste em vida
É de bom tamanho nem largo nem fundo
É a parte que te cabe deste latifúndio
É a parte que te cabe deste latifúndio
Não é cova grande, é cova medida
É a terra que querias ver dividida
É a terra que querias ver dividida
O uso e apologia aos
softwares proprietários pelo usuário implica numa assimetria entre o
proprietário do bem e o restante da sociedade, o único que possui os direitos
sobre o software é a empresa ou o desenvolvedor, estes podem voluntariamente
excluir dos usuários a possiblidade de usar, estudar, modificar ou interagir
esse bem ou conhecimento. Tornando os sujeitos reféns, presos (achando que
estão livres) a uma cova “de bom
tamanho, nem largo, nem fundo”, que limita o seu crescimento pleno.
Excluindo os grupos historicamente oprimidos mulheres, povo negro, quilombolas
e nações indígenas, comunidade LGBTQI, e povos do Sul (de democracia tardia) de
expandir, desenvolver novos conhecimentos de acordo com suas demandas distintas
daqueles que detém o conhecimento, numa contínua relação de dependência na
produção do saber, favorecendo países ricos que põe a serviço do mercado.
Assim, a parte que cabe deste latifúndio a estes grupos excluídos é
uma porção tão pequena que limita estes sujeitos de produzirem de forma livre e
serem plenamente.
O software livre “é a terra que querias ver dividida”,
onde há uma igualdade entre os usuários de software e uma democratização de
acesso o que garante aos usuários de grupos minoritários, países em
desenvolvimento assegurar a possibilidade de dominar as tecnologias que usam,
deixando de ser simples consumidores de tecnologia desenvolvida fora,
resistindo a condição subalterna que estamos inseridos.
Rousseau
e Chico falam de terra, mas de perspectiva diferente, o primeiro fala de uma
terra que foi indevidamente privatizada, o segundo fala da devolução dessa
terra para todos, terra que é dividida para todos. Assim, é preciso ter a
intrepidez do sujeito de Rousseau e arrancar os marcos dos softwares
proprietários, pois isto implica direito a vida, a liberdade, a criação, a
cooperação, a partilha do conhecimento, características de um acesso a internet
descentralizado e horizontal. Rompendo com a ética do capital, de um poder
centralizador da informação e do conhecimento, cujo fim é a exclusão. Portanto,
é preciso como salienta Bonilla (2014), construir uma nova cultura, socialmente
mais justa, mais solidária, que possibilite relacionar redes de produção e
socialização que permitam a todos usarem dos bens imateriais produzidos pela
humanidade, como destaca Rousseau “pois
estarão perdidos se esquecerem que os frutos são de todos, e a terra de
ninguém!”.
A construção dessa cultura requer uma
infraestrutura básica livre, que vai desde a camada física do ambiente de
informação, até as camadas lógicas e de conteúdos, de maneira que cada sujeito
tenha um conjunto de recursos primários e últimos que lhe possibilite fazer e
comunicar a informação. Isto é necessário para que exista sempre um caminho
aberto para qualquer indivíduo ou grupo possa articular, codificar e transmitir
o que quiserem comunicar, independente dessa comunicação ser marginal ou não
comercializável.
Embora a canção de Chico apesente a triste saga de um lavrador, sem um final feliz, pois este só tem a sua terra no pós vida, o auto que inspirou essa canção “Morte e Vida Severina”, apesar de triste, tem uma mensagem de esperança no final com nascimento do bebê. Logo, ainda que seja severina a vida, árdua, cheias de lutas não deixemos de lutar, de resistir e ter esperança. Através da infinidade de possibilidades que a livre produção do conhecimento nos confere de tornar os desiguais, semelhantes e encher a vida de formosura, e assim ser:
— Belo porque é uma porta abrindo-se em mais
saídas.
—
Belo como a última onda que o fim do mar sempre adia.
— É tão belo como as ondas em sua adição
infinita.
—
Belo porque tem do novo a surpresa e a alegria.
—
Belo como a coisa nova na prateleira até então vazia.
—
Como qualquer coisa nova inaugurando o seu dia.
—
Ou como o caderno novo quando a gente o principia.
—
E belo porque o novo todo o velho contagia.
—
Belo porque corrompe com sangue novo a anemia.
—
Infecciona a miséria com vida nova e sadia.
—
Com oásis, o deserto, com ventos, a calmaria.
(Melo Neto, 1981, p. 27).
BONILLA, Maria
Helena Silveira. Software Livre e
Educação: uma relação em construção. PERSPECTIVA, Florianópolis, v. 32, n.
1, 205-234, jan./abr. 2014.
MELO NETO,
João Cabral de. Morte e vida Severina e outros
poemas em voz alta. 15. ed. Rio de
Janeiro, RJ: J. Olympio, 1981. http://docente.ifrn.edu.br/paulomartins/morte-e-vida-severina-de-joao-cabral-de-melo-neto/at_download/file
Acesso em 22//4/2021
SANTOS,
Boaventura de Sousa. Um discurso sobre as ciências. São Paulo, SP : Cortez, 2008.
SANTOS,
Boaventura de Sousa; MENESES, Maria Paula (Org.). Epistemologias do Sul. São Paulo, SP:
Cortez, 2010.

Perfeita a relação Daniele! Terra dividida, é isso mesmo! Num mundo tecnologizado, a terra é o software, os sistemas lógicos, que dão sustentação a todos os processos. Dividir essa "terra" é a estratégia para concentração do poder e acúmulo de capital. Privatizar um bem abundante (o conhecimento) é a forma de manter fora de circulação toda a massa da população que não pode ter acesso e nem sequer pagar pelo direito de uso. É a forma para impor a mais valia e a geração de lucros astronômicos, para poucos, de manter os países dependentes das grandes potências. E quando algum país consegue escapar dessa lógica, como foi o caso do Brasil, com o conhecimento produzido sobre a perfuração de petróleo em águas profundas (o pré-sal), logo vêm os golpes de estado para a expropriação desse conhecimento e a manutenção da dependência, subserviência, colonialização. Precisamos de pensamento e práticas decoloniais para fazer o enfrentamento. E o software livre é uma dessas possibilidades.
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