A Mão que Balança o Algoritmo


O espaço das redes sociais transforma todos em autores, um celular em mãos pode te transformar em produtor de conteúdo, o ciberespaço é um ambiente onde todos têm igual possibilidade de desenvolver novas tecnologias, produzir conhecimentos e criar novos conteúdos. Mas será que o ciberespaço é a utópica Shangri-lá?

Infelizmente, a Shangri-lá ainda continuará no mundo dos sonhos, porque nem na realidade física, nem na virtual, ainda não encontrou espaço. Apesar das redes sociais se ambientarem no ciberespaço, no espaço virtual, este ambiente não é hermeticamente fechado às questões sociais  ou seja, não está isento das contradições e demais demandas da sociedade. Logo, o ciberespaço como extensão e a continuidade do mundo físico vai reproduzir o racismo, machismo e outros males sociais.

Uma questão que tem sido denunciada por digital influencers negros é a tendência do algoritmo a reproduzir mais conteúdos de autores brancos, além disso os buscadores da rede associam os traços, características e corpo da mulher negra e do homem negro, a representações negativas, como a feiura, cabelo ruim, a pornografia, “confundindo” pessoas negras com gorila no Google photos, objetificando mais uma vez o corpo negro. Assim, o algoritmo de busca reproduz estereótipos e sofismas de nossa sociedade também no mundo virtual. Uma pesquisa realizada pela Black Inlfuence com 760 criadores de conteúdo constatou que influenciadores brancos recebiam em média 51,1% a mais do que negros, como se num ciclo porque estes têm um alcance maior, são também os que mais fazem campanhas publicitárias.

Diante disso, percebemos que a prática autoral que a internet proporciona a todos não é tão igualitária, é como se todos pudessem escrever um livro, mas na hora de expor a sua obra nas livrarias seus livros fossem retirados da prateleira ou ainda que estejam na estante não sejam tão facilmente visível aos leitores. Será que o problema está nas prateleiras ou em quem dispõe os livros ao público? O problema está com o algoritmo ou em que o produz? O algoritmo é racista?

A tecnologia em si, não entendo como racista. No entanto, quem conduz o algoritmo, quem orienta, treina as inteligências artificiais, quem produz e carrega as plataformas de pesquisa são pessoas e pessoas podem ser racistas, logo a tecnologia pode reproduzir práticas racistas. Fatos como os relatados acima ocorrem, porque a base de dados dessa plataforma não é diversa, porque as pessoas que treinaram esse algoritmo não são diversas e carregam a sua bagagem cultural e social para dentro da tecnologia. O algoritmo não é racista, mas os dados são e os sujeitos também são. 

O professor Mintz (2020) da UFMG, afirma que por muito tempo, a tecnologia foi vista como um ente abstrato, impermeável às questões societais de ordem política, econômica ou de qualquer natureza. Contudo, quem implementa as regras de circulação e articulação das informações  são indivíduos, movidos por regras de negócios e outras questões de natureza humana. Ao colocar um objeto técnico no mundo isso é uma forma de intervir no mundo e nenhuma forma de intervenção no mundo é neutra, ela vai incorporar aspectos de quem a produz. Assim sendo, é natural que preconceitos e valores sociais sejam incorporados dinamicamente nas regras tecnológicas, nas regras de negócios, conformando o processo de circulação das informações que também pode viabilizar o preconceito e estereótipos.

Pimentel e Carvalho (2020) afirmam que o ciberespaço é locus de autoria, de transformação e criação, através do conhecimento. É preciso se apropriar desta autoria transformadora e criadora através de ações individuais e coletivas para burlar o algoritmo, toda vez que este reproduzir sofismas racistas e outros estereótipos. Assim, primeiro é preciso estender a luta a toda sociedade civil. Segundo, democratizar a produção de tecnologia a grupos historicamente oprimidos e invisibilizados. Por último, denunciar frente às plataformas de pesquisa e redes sociais não apenas ações racistas por meios dos usuários, mas também aquelas fomentadas pela inteligência das plataformas, cobrando transparência de seus métodos.

Portanto, através de uma prática de autoria e de autoragem (de aprendizagem no processo de autoria) nas redes sociais aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a ser e a conviver neste espaço e para além dele numa perspectiva crítica e cidadã, a fim de implementar as liberdades essenciais a de criar novos conteúdos, novas tecnologias e de navegação para uma rede aberta a diversidade cultural e tecnológica, que não reproduz racismo, exclusão e outros males sociais.


CARVALHO, Felipe. PIMENTEL, MarianoAtividades autorais online: aprendendo com criatividade. Nov, 2020.

https://horizontes.sbc.org.br/index.php/2020/11/atividadesautorais/ Acesso em 29 de abril de 2021.


MINTZ, André Góes. MOURA, Maria Aparecida. Racismo Algorítmico. Live Boletim UFMG - Centro de comunicação. Dez, 2020.

https://www.instagram.com/tv/CIYXUxvAt4U/?igshid=pbn8bbk7q5aa Acesso: em 1° de maio de 2021.

Comentários

  1. Pois é Daniele, isso ocorre porque esses algoritmos são fechados, produzidos por grupos, com interesses específicos (softwares proprietários). Se fossem abertos, passíveis de serem auditados e produzidos por comunidades abertas (softwares livres), seriam muito mais democráticos e éticos. O que está em pauta é o modelo de produção dos algoritmos. A quem servem? A que interesses?

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