Entre Os Jetsons e Os Flintstons – o limiar da tecnologia

 



Quando pensamos em desenvolvimento, logo vem a nossa mente uma sociedade com baixos índices de violência, acesso a sistema de educação, de saúde de qualidade e também acesso ao emprego. Mas outro fator povoa logo nosso imaginário, é uma sociedade altamente tecnológica e uma vida conectada, tal como no desenho da década de 60, Os Jetsons. Este desenho mostra a vida de uma família no futuro com todas as modernidades que o século XXI poderia acarretar, lá podemos ver o protótipo de coisas que hoje já estão no nosso cotidiano, como TVs de tela plana, chamada de vídeo, relógios inteligentes, tablets, esteiras rolantes, assistente pessoal, como a Siri e a assistente pessoal do Google e a Rosie, a empregada robô da família.

É comum associar o avanço da sociedade, do ser humano, o ser “bem-sucedido” na vida, a posse de bens de consumo cada vez mais modernos. Logo, os que não têm, porque não querem ou não podem ter são considerados atrasados, “pouco esforçados” ou fracassados. Além de esta lógica ser perversa, pois troca o valor da dignidade humana, do SER pelo TER. Reduz toda a diversidade de organizações humanas a um único padrão, o modelo ocidental, etnocêntrico, onde a sociedade europeia está no topo da hierarquia do desenvolvimento e as demais formas de organização, como os povos originários: indígenas e quilombolas, estão de forma descendente, abaixo dela.

Dificilmente, olhamos para Os Flintstones, desenho animado da década de 60 sobre as vivências de duas famílias da Idade da Pedra Flintstones e Rubbles, como famílias tecnológicas, porém eles estão envoltos de tecnologia. Através de uma relação “harmônica” com os animais, que lhes proporcionam benefícios como o chuveiro-tromba de elefante que bombeava água, o toca-discos movido por um pica-pau, ou o cortador de gramas-dinossauro herbívoro. Há tecnologia também através do domínio da pedra e objetos cortantes proporciona a eles objetos comuns a nós hoje como TV, fogão, telefone e o carro movido pelos pés, todos objetos feitos de pedra.

Em ambos os desenhos há tecnologia, há desenvolvimento, há progresso. Porém, relacionamos desenvolvimento a um único padrão de sociedade, o progresso na perspectiva etnocêntrica, somente ao avanço tecnológico e a inovação, modelo que muitas vezes é extrativista dos recursos naturais e humano. Esta perspectiva oculta uma noção equivocada de tecnologia. Magrani (2018) aponta os limites desta visão, e explana que a técnica é algo que precede à tecnologia e consiste em um conjunto de conhecimentos e habilidades eficazes desenvolvidos pela humanidade para melhorar sua forma de viver. Com a revolução industrial o termo tecnologia mudou, para uma noção mercadológica e de aplicabilidade industrial sendo relacionada à capacidade de satisfazer as necessidades humanas através de inovações tecnológicas.

A tecnologia não deve denotar uma inovação tecnológica limitada ao meio digital, pois cada comunidade humana se relaciona com a tecnologia de acordo suas especificidades e o conhecimento tecnológico não está limitado apenas a certas comunidades, mas está presente desde os primeiros grupos humanos, classificados, muitas vezes erroneamente como atrasados, primitivos ou selvagens até as organizações humanas contemporâneas. Assim sendo, o arco e flecha, a roda e o computador são tecnologias igualmente importantes e revolucionárias no momento histórico que foram desenvolvidas.

O fetiche pelo progresso etnocêntrico faz que a tecnologia exerça um fascínio sobre as pessoas. Queremos estar conectados e com a versão mais atualizada possível dos aparelhos. À medida que ficamos mais conectados com aparelhos mais inteligentes e avançados, mais rompemos as fronteiras de nossa privacidade. Cada vez mais, estamos conectados a aparelhos e serviços que relacionam nossos dados pessoais com a tecnologia digital proporcionando um produto mais personalizado de acordo com as nossas demandas, e assim, se desenvolve a internet das coisas.

O conceito de internet das coisas é conectar aparelhos de nosso cotidiano a internet, possibilitando conectividade e interação entre esses objetos e nossas demandas pessoais através da rede. De acordo Santos (2016), a internet das coisas é a extensão da Internet que possibilita que os objetos do dia-a-dia agora sejam desenvolvidos com capacidade computacional e de comunicação, se conecta à Internet. A conexão com a rede mundial de computadores permitirá, primeiro, controlar a distância os objetos e, segundo, proporcionar que os próprios objetos sejam acessados como provedores de serviços. Assim, mundo físico e digital se tornam cada vez mais conectados, ações corriqueiras de nosso cotidiano como abrir uma porta, fazer uma corrida, olhar os produtos da geladeira, se tornarão digitais, com fechadura, tênis e geladeira inteligentes.

Com promessa de praticidade, mais tempo em família ou para si vemos produtos como a geladeira que tem três câmeras que tiram fotos dos alimentos sempre que a porta da geladeira for fechada e permite que você veja o que há dentro da geladeira por meio do smartphone. A revolução chegou mesmo com o adaptador, antes servia apenas para indivíduo colocar nos seus eletrônicos, agora o adaptador de tomada tem várias funcionalidades, desde ligar ou desligar aparelhos remotamente até agendar o horário de funcionamento de luminárias, cafeteiras, umidificadores de ambiente e eletrodomésticos. A caminhada não será mais igual com o tênis inteligente possui recursos para calcular o desempenho do usuário durante a prática da atividade física, como a distância percorrida, a velocidade média do esportista e a quantidade de calorias queimadas. Estaremos mais seguros em casas com a fechadura inteligente que utiliza um leitor de digitais e, assim que a impressão é reconhecida, o usuário já pode abrir a porta.

Como num passe de mágica, por meio da conectividade, os objetos inanimados ganham vida, tornam-se objetos inteligentes, mas a alma que lhes dão vida é a nossa, nossa identidade, nossos dados pessoais, biológicos, sociais, nossos desejos. Uma questão central para o desenvolvimento da internet das coisas é que sua expansão não seja realizada em detrimento da segurança e da privacidade das pessoas. É fato que estes objetos não mais inanimados podem ajudar as pessoas na resolução de problemas reais e tornar a vida mais fácil, mas o quão é necessário uma total conectividade?

Magrani (2018) critica o avanço da internet das coisas a objetos analógicos sem que haja necessidade para tanto, pois um objeto inteligente torna mais complexo seu manuseio, encarece o produto, se não há real necessidade de uma atualização útil do produto, esta tecnologia é refém do mercado. Tendo em vista que sem tecnologia avançada os objetos atendiam, satisfatoriamente, ao consumidor, podendo custar menos e ter um uso mais fácil. Assim, a tecnologia digital nem sempre facilita a vida dos indivíduos, os custos para conectar um aparelho são altos e os benefícios podem ser baixos demais para compensar o aumento do valor produto. Mas, a produção destes dispositivos tem um fim mercadológico, não importa se terá real utilidade, somente se será lucrativo. As produções de dispositivos inteligentes que não atendem a uma necessidade social, nem geram uma melhora tecnológica relevante seu objetivo é somente mercadológico, promovendo apenas o lucro de alguns e dominando um montante pelo fetiche da tecnologia.

Outra consequência apresentada pelo teórico da produção tecnológica em excesso é o lixo vindo do descarte de objetos e dispositivos obsoletos. Este tipo de lixo tem crescido grandemente, pela rápida perda de interesse dos sujeitos nos objetos “inúteis”. Desta forma, dispositivos que não geram benefícios substancias e uso duradouro são descartados.

A tecnologia vai além de um simples meio para atingir o “progresso” num viés reducionista, etnocêntrico e extrativista, é uma forma que o indivíduo relaciona a produção humana com os recursos naturais, a natureza, com o coletivo de indivíduos e consigo mesmo para benefício mútuo do coletivo. Seja de forma mais analógica como Os Flintstones ou mais digital, como Os Jetsons, a tecnologia deve possibilitar a qualidade de vida das pessoas em harmonia com os elementos naturais e os sujeitos. Quando subvertemos esta lógica e colocamos a tecnologia a serviço do mercado ou fazemos do sujeito mercadoria através da tecnologia, ao invés de proporciona o bem viver, o progresso tecnológico traz regresso a sociedade.

Enquanto houver sociedade haverá produção tecnológica, mas é preciso encontrar o limiar da produção tecnológica que é infinita, diversa (não se limita ao digital), fruto da capacidade criativa humana e as demandas da sociedade para que esta promova o desenvolvimento pleno do ser humano de forma que este não subjugue os recursos naturais, nem outros indivíduos a serviço do mercado e do lucro de poucos. Mas desenvolver uma internet das pessoas, para as pessoas, não para meros usuários e que promova benefícios e não somente internet das coisas.

 

MAGRANI, Eduardo. A internet das coisas. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2018.

SANTOS, B. P.; SILVA, L.A.M; CELES, C.S.F.S; NETO, J.B.B; PERES, B.S; VIEIRA, M.A.M; VIEIRA, L.F.M; GOUSSEVSKAIA, O.N.; LOUREIRO, A.A.F. Internet das coisas: da teoria a prática. Minicursos SBRC-Simpósio Brasileiro de Redes de Computadores e Sistemas Distribuıdos, 2016. Disponível em:  https://homepages.dcc.ufmg.br/~mmvieira/cc/papers/internet-das-coisas.pdf Acesso em: 19 de maio 2021.

https://recontaai.com.br/dos-flintstones-aos-jetsons-o-trabalho-nos-eua/



Comentários

  1. O discurso do desenvolvido x o atrasado sempre esteve presente na sociedade e serviu como argumento para empurrar para as margens os "atrasados", para não desenvolver políticas públicas que assegurem os direitos desses cidadãos. Evidentemente, o acesso e uso das tecnologias é um parâmetro para definir quem é atrasado e quem é desenvolvido, uma vez que as tecnologias são vistas como resultado de um processo desenvolvimentista. Evidentemente, elas também são utilizadas como parâmetro para hierarquizar as nações: quais são os países desenvolvidos? aqueles que dominam e produzem tecnologia de ponta! Os demais são subdesenvolvidos, de terceiro mundo, pobres ou qualquer outra designação que explicite que estão nos extratos inferiores dessa hierarquia.
    Isso não quer dizer que que devemos demonizar as tecnologias. É um direito de todas as pessoas e nações terem acesso, usarem e produzirem tecnologia, de acordo com suas necessidades e objetivos. Mas também é fundamental que se tenha uma visão crítica do papel que as tecnologias desempenham em cada sociedade, para não se deixar conduzir pelos discursos hegemônicos e não se transformar em peça nesse jogo chamado capitalismo.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Futuro: o que eu quero ser antes de crescer?

Guerreiras do Amanhã