ENTRE REDES, LAÇOS E ILHADOS
A maior solidão é a do ser que não ama
Vinícius de Moraes
A maior solidão é a do ser que não
ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se
fecha, que se recusa a participar da vida humana.
A maior solidão é a do homem encerrado
em si mesmo, no absoluto de si mesmo, o que não dá a quem pede o que ele pode
dar de amor, de amizade, de socorro.
O
maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se, o
ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo.
Esse queima
como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno.
Ele é a
angústia do mundo que o reflete.
Ele é o que se
recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e,
encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada
torre.
Esta
linda poesia de Vinícius de Moraes sintetiza a relação das pessoas através/ nas
redes sociais. Preso nas nossas telas, torres virtuais, aparentemente em
contínuas trocas, seguimos ilhados. Vivemos a maior solidão de todas, “a dor do
ser que se ausenta”, se eximi de fazer contato com o olhar, pois parece uma
perda de tempo preciosa, o contato face a face é substituído pelo contato tela
a tela. O sujeito está, continuamente, conectado, tendo encontros entre
indivíduos, que são breves, superficiais e, sobretudo, descartáveis.
Tal como o eu-lírico, os sujeitos
contemporâneos “estão encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo”, os
indivíduos seguem solitários, apesar da infinidade de possibilidades de contatos
plausíveis. Como Bauman afirma (2011) busca-se quantidade de conexões, não
qualidade das relações. O mundo do dia-a-dia tem sido gradativamente cooptado
pelo espaço off-line reduzido a fotos, vídeos, like, lives, tweets e
comunidades em detrimento do tempo vivenciado no mundo físico. Há um excesso de
exposição, mas sem profundidade de relações, perdendo a intimidade, a
profundidade e durabilidade da relação e dos laços humanos.
Os
sujeitos seguem solitários, pois como afirma o poeta tem “medo de amar, medo de
ferir e ser ferido”, assim estabelece relações, sem querer construir laços,
apenas na busca imediata pelo prazer, procuram satisfazer seus desejos de forma
quase que instantânea. Escolhemos parceiros como num grande mercado de pessoas,
minimizando a complexidade do ser humano a atributos físicos, consumismo o
outro, mas ao fim também somos consumidos pelo vazio das relações descartáveis,
que só aumenta a solidão e privação da experiência do calor humano.
É
fato, o quanto as redes sociais acrescentam e ampliam as possibilidades das relações
humanas, principalmente, num período pandêmico. Contudo, o desafio que esta
nova forma de se relacionar nos impõe é não tornar todas as relações rasas. Tal
como o bêbado e a equilibrista, seguimos nas cordas bambas das redes procurando
o equilíbrio para não esvaziar e tornar as trocas humanas superficiais e
descartáveis, prontas para serem desfeitas a qualquer momento através de uma
simples tecla de “excluir”. Mas com esperança equilibrista seguir no ambiente
físico ou virtual, não mais como o eu poético “semeando
pedras do alto de sua fria e desolada torre”, mas construindo laços
sólidos, pois ainda que seja laborioso conviver, é imprescindível para melhor
ser.
BAUMAN, Zygmunt. 44 cartas do mundo líquido moderno. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.
https://www.escritas.org/pt/t/1685/a-maior-solidao-e-a-do-ser-que-nao-ama
oi Daniele, muito linda a poesia de Vinícus, e muito articulada com as reflexões de Bauman. Você fez uma ótima relação entre eles. Agora, concordo com você, estamos na corda bamba, não podemos fechar os olhos para os riscos que nos cercam, vivendo em rede, mas também não podemos desconsiderar as possibilidades que as redes nos apresentam. O difícil é encontrar o equilíbrio entre as experiências online e offline, saber quando é importante construir e manter laços sólidos e quando é possível viver a fluidez das relações. Penso que há espaço e condições de vivermos e experienciarmos tudo isso...
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