Odisseia de Oz Pindorama
Foi em Oz Pindorama
Que houve este conto
Havia flores no campo
Com encantos e cantos
Os risos eram soltos
Não durava o pranto.
As mesas eram fartas
As mentes e almas também
Plantava e colhia
Trabalhava e ria
Nas vielas e ruas
A liberdade fluía.
Mas tudo isso mudou
Lá das bandas do Norte
Grandes e belos barcos
Roubaram toda sorte
Com promessas do novo
Trouxeram foi a morte.
Num piscar tudo mudou
De forma sorrateira
Dizendo ser cuidado
Fascinante e arteira
Zelo virou controle
E deu uma rasteira
O novo tragou o ser
Antes livres para criar
Hoje Seu Espantalho
troca alho com bugalho
Antes livres para amar
Hoje um Homem Lata
enferrujado coração de prata
Antes livres para ousar
Hoje um leão amarelão
foge de barata e ladrão
Um papelão!
O Rei feroz deixou de ser
Espantalho caixola de orvalho
Seu Lata, coração deixou de bater
Uma nova versão de si,
Automatizados, acelerados
Atualizados, alienados
Personalizados, robotizados.
Antes livres para ser
Hoje por máquinas capturados
Animais adestrados
Gostos, desejos, sonhos
Afetos, cores, sabores
Ser é moeda, lucro
Seguem sem eira, nem beira
Vida na prateleira.
Sob domínio do Norte
Seu ID é consumidor, produtor
A vida no mercado
Cantar, amar e comer
Jogar, ler e aprender
Tudo tem um APP
Mas nenhum pra retroceder
Só seguem, O Espantalho
O Leão e Seu Lata
Sem mágico e magia
Sem Dorothy, nem Isabel
Sem o arco, nem íris
Sem pote de ouro no fim da via.
Vão sem canto e flores
Vão sem sentir sua agonia
Só há cinza, concreto e buzina
Num cruzamento da vida
Uma trilha de pedrinhas amarelinhas salta as vistas.
Uma memória distante vem
Um passo de ousadia
Antes um, agora três
Enche o coração de alegria
Tocar, sentir e abraçar
Telas desligar pra desfrutar
Face a face que erradia
Já se ouve a melodia
Entre trocas e afagos
Há lembranças a Velha Oz
Veem a si, ao irmão
Seus limites e virtudes
Sem vazios, nem solidão
Há coragem, mente, coração
No outro se é mais forte
Aptos pra enfrentar o Norte.
No trabalho coletivo
Livres do domínio do Norte,
Do relógio em descompasso e incerteza
Vão no passo e compasso da natureza
Riscam traço, vão sem embaraço, com leveza
De ouro branco e pérola negra,
medalha de coragem para Seu Leão forjaram
De fios de seda e nuvens de algodão,
coração para Seu Lata teceram.
De sementes, pedras e pétalas,
cérebro para Seu Espantalho construíram.
Sonhos da velha e nova Oz
Aquecem mentes e corações
Fibras de titânio, pedras amarelas
e sementes de girassóis
Constroem novas rotas de liberdade
Desatando velhos nós
Caminho laborioso,
mas também frutífero
Puseram-se a ladrilhar
Com afinco a trilhar
De fibra óptica, cobre
Madeira, vibranium
A cor se redescobre
Tons nas ruas e ziriguidum
Já há arco-íris
Nascem distintas veredas na cidade
Em comum só sementes
de girassóis e liberdade que crescem
Azul turquesa, rosa pink
Verde água e amarelo royal
O cinza sai e as flores nascem
Ao vento no varal dançam os lençóis
Ao pôr-do-sol sabiá canta, voa
Deixam todos à vontade,
é só felicidade
São de todas as cores
do Sul e até do Norte
Diferentes povos, línguas
Letras, tamanhos, dores
Vem irmãos e irmãs
Com qualidades e limites,
Amores, rancores, autores
Construtores do porvir
Não mais a Oz antiga,
nem o ideal do Norte
nasce uma cantiga
Esperança aquece
Os girassóis já nascem
Nas estradas florescem
Sol brilha e abriga
Desfila e bendiga.
KOERNER, Andrei. Capitalismo e vigilância digital na sociedade democrática. Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo , v. 36, n. 105, e3610514, 2021.
Parabéns pela autoria! Uma odisseia, crítica para pensar nosso tempo e as relações que nos afetam, atravessam, constituem, aniquilam, controlam e libertam...
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