Cena da série Holo, meu amor.
Numa realidade fictícia trazendo o consumo ao extremo, está o seriado sul-coreano de ficção científica, Holo, meu amor, produzida pela Netflix em 2020. A trama apresenta a história Han So-Yeon (Ko Sung-Hee), uma moça que sofre de cegueira facial, que impede que ela enxergue o rosto das pessoas. Devido a isso, a protagonista se distancia das pessoas por não poder reconhecê-las. Porém, ao encontrar um par de óculos aparentemente normais, mas que é um óculo de realidade aumentada. Han So-yeon tem acesso a um novo programa de assistência pessoal através de uma inteligência artificial chamada Holo. O outro protagonista é o desenvolvedor da inteligência artificial Ko Nan-do (Yoon Hyun-min), este por consequência do destino, vive isolado em casa enquanto sua irmã mais velha, Ko Yoo-jin, gerencia a empresa de tecnologia fundada por ele, a GIO LAB. A história se desenvolve em torno da relação destes personagens que tem dificuldadde de se relacionar com outros indivíduos, mas constrói uma relação afetiva com a Inteligência Artificial, Holo, que possui forma humana, apesar de nos conectarmos a ele por meio dos óculos. Os personagens humanos através da relação com a I.A. aprendem sobre si, rompem sua ilha de solidão e começam a construir relações com outros indivíduos, enquanto o I.A. começa a desenvolver emoções humanas como culpa, compaixão e amor. O Holo é apresentado pela equipe de markentig da empresa como seu amigo, aquele que é perfeito para amenizar a solidão, o qual estará a serviço do usuário, para suprir suas relações e reagirá sempre como usuário quer, superando as relações humanas marcadas por traições, insegurança, expectativas e decepções. A trama se desenvolve e as pessoas ficam fascinadas pela I.A., ele é um sucesso de vendas, afinal, todos querem um amigo à disposição e assim, trocam os seus pares humanos por uma relação artificial e segura com um holograma, enquanto, este deseja ser mais real, almeja ser humano. Embora, Holo seja um excelente secretário virtual, capaz de identificar seu estado de humor, se está doente, te indique remédios e até te ensine a dançar e seja capaz de te fazer viajar sem sair do lugar com a simulação de ambientes. Ele nunca poderá dividir uma pizza contigo, ou te proteger com guarda-chuva num dia chuvoso ou te aquecer com um abraço, pois sua existência, embora seja real, está restrita apenas ao mundo virtual. Apesar de esta ser, uma obra de ficção, ela aponta de forma mais exagerada sobre um cenário de mercantilização da vida, onde as trocas afetivas não são mais com seres humanos ou animais, mas com robôs, A.I., o qual é só um conjunto de algoritmos que reage a você, na realidade você se relaciona consigo mesmo, como espelhos de si, numa efêmera relação virtual consigo mesmo. O desenvolvimento de tecnologias visa melhorar a qualidade de vida dos seres humanos, otimizando nosso tempo de trabalho para vivermos mais e melhor, aproveitando mais a vida e sendo felizes. Mas, as mídias e redes sociais norteadas pelo capitalismo nos reduzem a consumidores e tem capturado nossa subjetividade, virtualizando a vida e suas práticas, as trocas sociais e nossa relação com o planeta. Como consumidores, os indivíduos tentam comprar o que não é monetarizado, bem-estar, aceitação, o fim da solidão. Contudo, o capital não regula tudo e nem todas as vivências humanas cabem no digital. O estar no mundo é uma experiência plural, é um jogo analógico e digital, a gente produz e consome, trabalha e descansa, acerta e erra, vamos da criação ao ócio. Embora, não ditemos todas as regras do jogo, todo sujeito deve ser o protagonista de seu próprio jogo, agente crítico de sua existência e não telespectadores coadjuvantes. A tecnologia, a rede, as mídias podem mediar, facilitar as relações humanas. Contudo, estes recursos não devem nortear, ser a força motriz da relação sujeito — mundo, pois assistir o pôr do sol; ler um bom livro; perder a hora com os amigos jogando Dixit, Carcassonne ou maratonando series; ou papear na varanda, sentindo a brisa da noite e vendo a vida passar, tudo isso é grande demais para decompor no virtual. - A obra de arte é uma releitura do ilustrador coreano Kim Dong- Kyu que resolveu deixar famosas obras de arte do século passado com uma cara mais atual. No seu projeto chamado “Art x Smart“ pinturas de Van Gogh, Picasso e Renoir ganharam notebooks, celulares e tablets.
BAUMAN, Zygmunt. 44 cartas do mundo líquido moderno. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. HUIZINGA, Johan. Homo ludens. São Paulo: Perspectiva, 2001. SANTAELLA, Lucia. Culturas e Artes do Pós-Humano: da cultura das mídias à cibercultura. 2ª ed. São Paulo: Paulus, 2003. |
Essa é uma boa pergunta Aldeneide: Quem sou? Uma pergunta que o ser humano se fez ao longo de toda a história da humanidade. E quando pensa que achou a resposta, tudo se transforma (incluindo o próprio ser humano) e a pergunta volta ao centro do debate... um movimento infinito... Os casos narrados por vc mostram bem que estamos vivendo um desses momentos de desestabilização do Eu. Daí surgirá um novo ser humano? ou precisaremos lutar contra essas transformações, tentando manter uma estabilidade que nos identificava? Talvez só tempo possa nos dar a resposta...
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